domingo, 8 de maio de 2016

Oito dramas de um esquisitão

Considero como ESQUISITÃO ou ESQUISITONA aquela pessoa que não consegue se encaixar nos padrões sociais vigentes. São poucos os lugares nos quais os esquisitões se sentem à vontade e são poucas as pessoas que se sentem à vontade com eles também. 

Desde muito cedo eu me sinto assim. Já nos primeiros dias de escola parecia sempre estar em um mundo que não era meu. E, desde então, venho buscando um lugar para chamar de meu nesse mundo (e não, não está sendo fácil). 

Cito a seguir as principais características, dramas e alegrias de um ESQUISITÃO. Tudo com o objetivo de sermos melhor compreendidos (por nós mesmos, é claro). 

Obs: o teto está em primeira pessoa do plural e em terceira pessoa do singular (por que não?):

1) O esquisitão não é compreendido em sua própria casa

Pois bem, desde cedo passamos dificuldades diante de nossos pais e irmãos. Ao contrário do senso comum, que afirma que a fruta não cai longe do pé, o esquisitão não se assemelha em seu jeito de ser nem ao seu pai nem à sua mãe. Não os considera totalmente como referências para sua vida. Critica desde novinho a forma como é tratado. Consegue ver os diversos aspectos que poderiam ser melhorados em sua própria família. Não suporta mediocridades, foge dos conflitos e detesta seguir ordens. Em diversos momentos, sente-se sufocado em sua própria casa. Quando oprimido, não raro entra em depressão. Seus pais e seus irmãos não o entendem. Pior, eles o enxergam e o julgam com base neles mesmos. Por mais que um esquisitão tenha muitas qualidades (geralmente são muito inteligentes), acaba por se sentir sempre inferiorizado em seu próprio lar, como se fosse alguém com sérios problemas. Sim, pensar de mais é um sério problema para quem não é assim (acredite, outras pessoas tem a capacidade de NÃO PENSAR o tempo todo!!!);

2) As escolas podem ser um grande problema, mas também um grande refúgio

Ao chegar na escola, os esquisitinhos irão se deparar com uma nova realidade. E terão grandes dificuldades de se adaptar a ela. Por mais que tentem, não conseguem ser iguais aos coleguinhas de classe. Em geral, sofrem algum tipo de discriminação, especialmente se não há na família uma base sólida para que os esquisitinhos se sintam mais seguros. No entanto, professores costumam protegê-los. Afinal, ser professor nos tempos atuais exige muita inteligência e resiliência. Professores costumam até mesmo se corresponder com seus alunos esquisitos, vêem a si mesmos quando crianças. Com isso, surge a esperança de, no futuro, sermos adultos "normais" e aceitos pelos outros. 

O melhor momento de um aluno esquisitão, tanto na infância quanto na adolescência, é quando encontra outros esquisitões. Aí sim, parece que finalmente consegue "se encontrar na vida". 

3) Adolescência: a pior fase da vida

Contrariando aquela visão romântica de que a adolescência é a melhor fase da vida, o esquisitão sente já nessa fase o mundo cair sobre seus ombros. Os esquisitos que conheço (inclusive eu mesmo) aparentam nessa época serem idosos, porém com corpo jovem. Ainda não há liberdade para viver muitas experiências, não se pode tomar decisões totalmente por conta, e isso pode ser um verdadeiro inferno. Ser oprimido como criança é algo traumático para um esquisitão. Além disso, costumamos ter poucos amigos nessa fase (apesar de bons) e raramente começamos a namorar. Por influências alheias (e naquela velha tentativa de ser "que nem os outros"), alguns até tentam ficar com alguém, mas desde cedo querem algo mais sério e querem alguém que os aceite. Como nem todos entendem um esquisito, acabam se ferindo, alguns a ponto de demorarem muito tempo para se abrir para o amor (ou até mesmo nunca mais se abrirem). Geralmente é nessa época que acontecem as piores brigas com a família. Muitos de nós saem de casa. 

4) Ensino Superior: um grande alívio

É na faculdade que nós, esquisitos, nos soltamos mais. Afinal, creio ser esse um dos espaços mais democráticos hoje em dia, e dependendo o curso escolhido, os esquisitões formam maioria. Então se torna possível fazer amigos, conversar sobre todo tipo de assunto, compartilhar experiências e visões, entre tantos outros. Porém, a faculdade nos aborrece sempre que se percebe nela o que há fora dela: disputas de poder, disputas de ego, colegas que parecem não ter cérebro, regras quantitativas que te obrigam a atingir metas, quando tudo o que você busca é viver uma experiência que impulsione todo o resto da sua vida. 

5) Esquisitões são perdidos quanto à religiosidade

É preciso aqui diferenciar RELIGIOSIDADE de ESPIRITUALIDADE. Compreendo uma religião como um caminho, uma estratégia (ou um conjunto de experiências) escolhida livremente por um cidadão para que ele possa lidar com a sua fé. Por fé, entende-se a capacidade de crer naquilo que não vemos. 

A espiritualidade vai mais além. E é nesta que o esquisitão foca. Os esquisitos tem sede de espiritualidade, mas não conseguem encontrar com facilidade uma religião que lhes permita buscá-la. Entendo a espiritualidade (ainda que de forma bem rasa) como o cuidado com nosso íntimo, a conexão do nosso íntimo com as forças e energias universais, a reflexão, o amadurecimento de ideais. Por ser mais amplo, esse conceito não está necessariamente ligado a uma religião. E nem sempre as religiões disponíveis permitem que os esquisitos busquem sua espiritualidade. Rituais raramente nos contentam, pois tudo para nós tem que ter algum sentido. Temos muita vontade de entender nosso próprio coração, os anseios de nossa própria alma, de buscar paz e conforto espiritual. Mas regras religiosas nos oprimem, nos sufocam e nos distanciam ainda mais da espiritualidade que tanto queremos.

Os esquisitos não conseguem apenas ouvir o que se fala em um culto religioso, seja ele do tipo que for. Ele sempre acaba pensando muito além, enxerga contradições, fica em dúvida. Por ficar tão perdido, acaba por ser julgado por outros religiosos. Não raro, muitos se tornam agnósticos ou ateus. Outros, como eu, dão a sorte de encontrar algum refúgio e se firmam nele, visto que tem surgido cada vez mais opções para nós, sedentos de espiritualidade. Mesmo nas religiões existem oásis onde é possível ter um contato muito profundo com nosso íntimo e com nosso Deus. 

Ainda assim, nada funciona melhor com nós do que o silêncio de um quarto escuro e fechado. É nele que destruímos nossos monstros, lutamos com nossos demônios, choramos e sorrimos, conversamos longamente conosco mesmos e conseguimos, aí sim, encher nosso espírito de paz e graça. 

6) Esquisitões tem dificuldade em formar família

A família em que o esquisitão vive pode ser um referencial ruim. Dependendo da experiência, o esquisitão tende a viver solitário. Pode mudar de cidade, de estado ou de país, viajar o mundo, conhecer lugares e pessoas, pois não há limites para um esquisitão. 
O pré-requisito para a formação de uma família é encontrarmos nosso par. E isso pode ser muito difícil, conforme comentado antes. Há uma grande dificuldade em encontrarmos pessoas sintonizadas com nosso espírito. E quando encontramos, nem sempre conseguimos ajustar todos os aspectos. É difícil ao esquisitão se entregar para qualquer pessoa e permitir que alguém invada seu íntimo. Afinal, já sofremos muita discriminação durante a vida, outras pessoas já nos machucaram. 

São raros aqueles (como eu) que conseguem encontrar alguém para compartilhar o mesmo caminho. Eu mesmo demorei muitos anos, e meu primeiro amor é o único que eu tive (e que quero ter). Nos raros casos em que um esquisitão encontra alguém tão esquisito quanto ele e que consegue compreender exatamente o que se passa dentro dele, existe uma grande tendência de construir um relacionamento profundo, duradouro e diferenciado. O casal continua a ser discriminado (por vezes por pessoas bem próximas) e visto como esquisito, mas um tem ao outro e ambos se completam e dão paz um ao outro, constituindo uma relação de cumplicidade. Essa é a única possibilidade aparente de um esquisitão formar família. Até por que, temos pavor de relações mornas e superficiais e não apreciamos relações de aparência, brigas constantes, opressões e limitações. Se não somos aceitos pelos "outros", nosso par precisa nos acrescentar e nos aceitar. 

7) O velho drama de arrumar emprego

Arrumar emprego também é uma árdua tarefa para o esquisitão. Tudo começa com o processo de busca. Ter que colocar nossas experiências profissionais em modelos engessados de currículos e sermos entrevistados por recrutadores que mais parecem robôs nos deixam desanimados. Sempre nos colocam contra a parede de tal modo que nos sentimos inferiorizados. Por não termos uma vida "normal", sofremos para convencer alguém que podemos ser excelentes profissionais. Tudo o que o esquisitão deseja é ter uma condição profissional privilegiada de tal modo que consiga se aceitar melhor, consiga se sentir bem consigo mesmo e não ser mais tão inferiorizado. 

Ao conseguirmos o bendito emprego, sofremos também. Com raras exceções, precisamos conviver com tudo aquilo que odiamos: hierarquias, jogos de poder, pressão, disputas internas e falsidade. Na tentativa de sermos profissionais diferenciados, acabamos por sermos vistos como inferiores. Não raro, somos deixados de lado, mesmo tendo mais qualificação. Outras pessoas nos boicotam, nos sufocam, nos inferiorizam, com aquele velho medo de perder sua própria posição. Situações antiéticas, tão comuns em grande parte das empresas, chateiam demais um esquisitão. As salas de aula, os empreendimentos próprios e iniciativas particulares são os nossos principais refúgios, bem como aquelas raras empresas em que o ambiente de trabalho não sufoque.

8) Aglomero e barulho não são para nós

Por mais que a gente tente, é praticamente impossível encontrarmos paz e harmonia no barulho e em contato com muita gente. Nem sempre as festas noturnas fazem nossa cabeça. Bebida alcoólica não faz a menor diferença para um esquisito, que está sempre vivendo tantas realidade dentro de uma só pessoa. Futilidades e aparências não nos agradam. Tampouco gostamos de sermos julgados por nossa aparência. Pessoas aproveitadoras e mal-educadas nos deixam de mau humor. Esquisitos gostam de estar perto dos seus, mas mesmo nesses casos sentem saudade do conforto e do silêncio do seu quarto.


Como você bem pode perceber, tudo o que um esquisitão mais precisa é ser aceito como ele é. Afinal, somos pessoas que temos muito o que oferecer. Temos nossos defeitos e qualidades como qualquer um, somos diferentes como qualquer um, mas temos diferenças ainda mais acentuadas. Sofremos por conta das nossas diferenças. Mas também desfrutamos de situações e realidades únicas, o que torna o fato de sermos esquisitos um grande privilégio. Resta a nós mesmos aceitar exatamente o que somos. Saber que somos diferentes. E continuarmos procurando nosso espaço nesse lugar tão insalubre e tão belo. 

Continua...

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